Uma viagem pelo sertão nordestino e pela seca

Foram três mil quilômetros pelo sertão. Passamos pelas regiões mais castigadas, pela maior seca que se tem registro nos últimos 100 anos. Pegamos um avião no Rio de Janeiro e voamos até Teresina. De lá, seguimos de carro em nossa aventura pelo semiárido. E como nem tudo o que acontece no caminho cabe em uma reportagem, aqui neste espaço eu conto mais detalhes de nossa jornada pelo sertão.

POÇOS JORRANTES

Acidade de Cristino Castro, no Piauí, parece um oásis no meio da seca. Ela está sobre o aquífero Cabeças, reserva de água subterrânea acumulada pela chuva ao longo de milhões de anos, que poderia resolver o problema da falta de água no semiárido por, pelo menos, 300 anos sem chuva. É o que dizem os técnicos do Serviço Geológico do Brasil. Mas o que se vê é um triste retrato do Brasil. A água mineral, própria pra consumo humano, é desperdiçada em poços jorrantes que são usados para o lazer e ainda para encher piscinas que são esvaziadas diariamente. São 36 numa cidade de pouco mais de dez mil habitantes.

Água jorra alto em Cristiano Castro enquanto muitos sofrem com a seca

PRIMEIRA SELFIE

Esse é o Rafael, filho da D. Francisca, a senhora que mora em frente a um poço, mas não tem água. Rafael nunca tinha visto um telefone celular com câmera de selfie e se divertiu quando o chamei para tirar uma foto. A cada vez que apertava o botão da tela e a foto se formava, ele ria, gargalhava! Olha as fotos que ele tirou da gente, que cara de sapeca.

A selfie do pequeno Rafael

JEGUE ESCONDIDO

Ocalor era tão grande e o sol tão implacável que até os animais tentavam se proteger. Flagramos esse jegue se refugiando numa casinha para fugir do sol. Ele parecia aliviado.

Todo mundo merece sombra e água fresca…

QUEBRAR DA BARRA

Osertão brasileiro é tão pobre quanto bonito em suas paisagens. Um dos maiores espetáculos que se vê é o que chamam de “Quebrar da Barra”, o momento em que o primeiro raio do sol corta o céu. Os sertanejos dizem que ao Quebrar da Barra se levantam e, em dias de festa, é ele que determina a hora de encerrar o forró e voltar para casa.

O Quebrar da Barra traz o primeiro raio de sol ao sertão

RAPADURA ORIGINAL

Aseca é tão grande que não se faz mais rapadura de cana, porque simplesmente as plantações não vingam. Mas o Zé Marques, que é dono de engenho há mais de 50 anos, guarda um tesouro em casa: algumas rapaduras feitas de melaço de cana, como manda a tradição. Ele me disse que só serve a família dele ou alguma mulher grávida que bater em sua roça com desejo de rapadura original. Mas ele foi generoso e me deu uma barra. É uma delicia!

Seu Zé Marques dá seu presente

MANDACARU MOÍDO

Mandacaru não é comida para bois, vacas e cavalos. Mas o pasto acabou e os sertanejos já não têm mais como alimentar seu animais. Para tentar matar um pouco a fome dos bichos, eles tiram o espinho do mandacaru, moem e dão aos animais. Não mata a fome, mas enche a barriga. Foi o que me contou um triste e resignado vaqueiro.

Vaqueiro recolhe mandacaru para seus animais

FLOR DE MANDACARU

Olha a Flor do Mandacaru, a planta mais resistente ao solo árido. Apesar da seca, ela é muito bonita.

A bela flor do Mandacaru

CENA TRISTE

Essa foi a cena mais triste que vi na estrada. Esse garoto, Mateus, trabalhando na roça com o avô. Ele tem 5 anos e merecia estar brincando, vivendo uma infância feliz e não tão dura.

Mateus trabalhando na roça

REPORTAGENS

Na primeira parte do caminho, os repórteres Chico Regueira e Alberto Fernandez revelaram o desperdício de água na região que sofre há seis anos com a seca. Na segunda parte da série de reportagens, o Bom Dia Brasil mostra que as obras que deveriam compensar a escassez no sertão não acabaram com o sofrimento do sertanejo, que ainda sofre diariamente na busca pela água.Veja abaixo a íntegra das reportagens exibidas no Bom Dia Brasil.

Fonte: G1